29 de maio de 2012

Perillo comparece à CPI, mas é dispensado por parlamentares

Mesmo sem ser convocado pelos parlamentares, o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), compareceu ao Senado nesta terça-feira e se ofereceu para depor na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista que investiga as relações do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com agentes públicos e privados.

Marconi Perillo é citado em escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal que teriam como personagens integrantes do esquema de Cachoeira, suspeito de controlar um esquema de jogos ilegais em Goiás. Em uma das gravações, um dos membros do esquema dá a entender que levaria dinheiro para o governador, no Palácio das Esmeraldas, sede do governo goiano. Além disso, Cachoeira foi preso em uma casa que já foi de Perillo e cuja venda ainda levanta questionamentos entre os membros da CPI.

Foi para esclarecer esses e outros questionamentos sobre sua relação com o empresário que o governador foi ao Senado. “Vim espontaneamente à CPI, entreguei um requerimento ao presidente, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), colocando-me à disposição para prestar quaisquer esclarecimentos sobre a minha ação, o meu governo ou quaisquer dúvidas em relação à minha lisura. Tinha disposição de falar hoje à CPI, mas o presidente disse aos líderes que não seria possível falar por se tratar de uma pauta administrativa”, disse Perillo pouco antes de ir embora sem falar aos parlamentares.

Em entrevista, no entanto, o governador voltou a negar que tivesse relações próximas com o empresário e disse que, em apenas uma das escutas telefônicas, ele fala diretamente com Cachoeira, para cumprimentá-lo pelo aniversário. “Estive com ele pouquíssimas vezes, em encontros absolutamente fortuitos. Não tive jamais qualquer tipo de relacionamento com ele, a não ser uma vez que eu o recebi no palácio e dois ou três poucas vezes que eu o encontrei em eventos festivos ou sociais”, disse o governador.

Perillo enfatizou ainda que nunca houve qualquer tipo de relação do grupo de Cachoeira com o governo do Estado. “Posso assegurar e direi isso à CPI”. E acrescentou que os contratos com a Delta Construção, em Goiás, são “muito pequenos em comparação ao resto do País”. Carlos Cachoeira é suspeito de ser sócio oculto da Delta, que participa de diversos contratos públicos.

A CPI investiga se a empresa era usada pelo empresário para lavar dinheiro e fraudar licitações. Segundo Perillo, os contratos da construtora com o governo goiano estão sendo auditados. Por fim, o governador disse que não está preocupado em ter seus sigilos bancário, fiscal ou telefônico quebrados.

A convocação de Perillo e dos governadores do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), e do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), chegou a ser colocada em pauta, nesta terça-feira, na reunião da CPI, mas o pedido foi retirado pelo presidente da comissão, senador Vital do Rêgo. O motivo foi um questionamento sobre a prerrogativa da comissão para convocar governadores. Os governos de Agnelo e Cabral também têm contratos com a Delta Construção.

Carlinhos Cachoeira 
Acusado de comandar a exploração do jogo ilegal em Goiás, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, em 29 de fevereiro de 2012, oito anos após a divulgação de um vídeo em que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, lhe pedia propina. O escândalo culminou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos e na revelação do suposto esquema de pagamento de parlamentares que ficou conhecido como mensalão.

Escutas telefônicas realizadas durante a investigação da PF apontaram contatos entre Cachoeira e o senador democrata Demóstenes Torres (GO). Ele reagiu dizendo que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido a critérios legais.

Nos dias seguintes, reportagens dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo afirmaram, respectivamente, que o grupo de Cachoeira forneceu telefones antigrampos para políticos, entre eles Demóstenes, e que o senador pediu ao empresário que lhe emprestasse R$ 3 mil em despesas com táxi-aéreo. Na conversa, o democrata ainda vazou informações sobre reuniões reservadas que manteve com representantes dos três Poderes.

Pressionado, Demóstenes pediu afastamento da liderança do DEM no Senado em 27 de março. No dia seguinte, o Psol representou contra o parlamentar no Conselho de Ética e, um dia depois, em 29 de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski autorizou a quebra de seu sigilo bancário.

O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), anunciou em 2 de abril que o partido havia decidido abrir um processo que poderia resultar na expulsão de Demóstenes, que, no dia seguinte, pediu a desfiliação da legenda, encerrando a investigação interna. Mas as denúncias só aumentaram e começaram a atingir outros políticos, agentes públicos e empresas.

Após a publicação de suspeitas de que a construtora Delta, maior recebedora de recursos do governo federal nos últimos três anos, faça parte do esquema de Cachoeira, a empresa anunciou a demissão de um funcionário e uma auditoria. O vazamento das conversas apontam encontros de Cachoeira também com os governadores Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, e Marconi Perillo (PSDB), de Goiás. Em 19 de abril, o Congresso criou a CPI mista do Cachoeira.